ATIVIDADES REMOTAS PARA CRIANÇAS: O DESAFIO ÀS FAMÍLIAS E ESCOLAS EM TEMPOS DE PANDEMIA – Colégio Santa Gema

ATIVIDADES REMOTAS PARA CRIANÇAS: O DESAFIO ÀS FAMÍLIAS E ESCOLAS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Resultado da Campanha de Arrecadação de Alimentos
13 de julho de 2020
Resumo
Em dezembro de 2019, em Wuhan na China apareceu o primeiro caso da COVID-19. No dia 11 de março, deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou o surto do Coronavírus como pandemia. Essa determinação mexeu com as ações e estratégias governamentais, e para que o vírus não se espalhasse com maior rapidez e causasse um colapso na rede de saúde mundial, foi decretado, ordenado e orientado o distanciamento social, que atingiu drasticamente a rotina da vida acadêmica de crianças e jovens, pois as aulas presenciais foram suspensas aqui no Brasil a partir do dia 23 de março.Com a determinação, as escolas, durante esse período, poderiam ofertar aos seus estudantes, atividades pedagógicas à distância, em diversas modalidades. Esse artigo tem o objetivo de ilustrar como foi o início desse período. As ações e reações dos envolvidos. Eis o desafio!!! Para educadores, gestores, famílias eestudantes!!!
INTRODUÇÃO

Ninguém nasce borboleta... A borboleta é um presente do tempo (MARTINS, s.a, s.p.).

Vivemos um momento único em nossas vidas, em que a partir do dia 23 de março, a vida acadêmica de crianças e jovens, as ações pedagógicas de professores e gestores, da rede educacional pública e privada, não seria como sempre foi. Aulas presenciais, ações instantâneas de breve e longo prazo, para a apropriação dos conceitos, a convivência social, a troca de saberes, tudo isso deveria ser modificado, pois a COVID-19, doença causada pela família do Coronavírus, que segundo Jonas Valente da Agência Brasil de notícias, em humanos, pode causar infecções respiratórias que vão desde um resfriado, até síndromes respiratórias agudas severas, interrompeu o fazer da educação formal, deixando todos, quando eu digo, todos, todos mesmo...com dúvidas, angústias, preocupações e acima de tudo, tomada de decisões imediatas, para que a aprendizagem continuasse acontecendo.

A suspensão das aulas na rede pública e particular foi uma decisão conjunta entre os profissionais da Secretaria de Estado e Ministério da Saúde para conter a pandemia.

É provável que isso se deu pelo fato que a LDB (1996), prevê adaptações do calendário escolar de acordo com peculiaridades locais ou até climáticas. Ou em caso de epidemias infectocontagiosas, os 200 dias possam não ser cumpridos. O presidente Jair Bolsonaro editou uma Medida Provisória suspendendo os 200 dias letivos, porém mantendo a obrigatoriedade das 800 horas.

Cada eixo educacional no estado de São Paulo teve a liberdade de optar pela forma de trabalho. As escolas municipais e estaduais iniciaram o distanciamento social com a antecipação do Recesso Escolar, que se estendeu do dia 23 de março até 09 de abril. A partir do dia 13 de abril as escolas públicas, em reuniões a distância, iniciaram o processo de planejamento das atividades pedagógicas, pois o distanciamento social continuou, devido o número de casos existentes em nosso munícipio, partindo então para as atividades pedagógicas à distância.

Já muitas escolas particulares optaram em manter as atividades pedagógicas à distância no mês de março e início de abril, com uso de plataformas educacionais para o andamento do processo. Algumas instituições privadas, optaram pela antecipação do período de férias na segunda quinzena de abril, pelo fato da angústia das famílias em acompanharem os processos educacionais formais de seus filhos, no qual muitos se sentiam inseguros e despreparados para tal responsabilidade.

O mês de março mudou a realidade da ação profissional do professor. O professor, o diretor, o coordenador pedagógico, estavam em suas casas, mas eles não sabiam o que era descansar. Todos trabalharam separados, mas juntos para reinventar a escola e não deixar a educação parar. Eles aprenderam do dia para noite a lidar com questões tecnológicas, plataformas, recursos audiovisuais, edições e formatações, com o intuito de deixar o processo de aprendizagem mais leve, principalmente para as famílias que conduziriam todo o processo. Não foi fácil, não foi nada fácil, mas o papel do educador não é fazer o possível e o impossível para que a aprendizagem realmente aconteça?

Como escreveu Maria Cecília Almeida e Silva[s,d],, “Com a experiência em sala de aula, a Esperança não apenas se concretiza, mas também se renova no dia a dia, no longo processo”.

Esse artigo objetiva que o processo de aprendizagem é feito de gente de perto ou de longe, é feito de gente, gente que compreende a resiliência e assume para fazer sempre o melhor, gente que não entende, busca culpados e justificativas, gente que quer fazer a diferença, gente que não quer fazer nada. Freire[s,d], em seu poema que nomeou como “Escola”, afirma:

Escola é ... o lugar que se faz amigos. Não se trata só de prédios, salas, quadros, Programas, horários, conceitos... Escola é sobretudo, gente Gente que trabalha, que estuda Que alegra, se conhece, se estima. O Diretor é gente, O coordenador é gente, O professor é gente, O aluno é gente, Cada funcionário é gente. E a escola será cada vez melhor Na medida em que cada um se comporte Como colega, amigo, irmão. Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados” Nada de conviver com as pessoas e depois, Descobrir que não tem amizade a ninguém. Nada de ser como tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só. Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, É também criar laços de amizade, É criar ambiente de camaradagem, É conviver, é se “amarrar nela”! Ora é lógico... Numa escola assim vai ser fácil! Estudar, trabalhar, crescer, Fazer amigos, educar-se, ser feliz. É por aqui que podemos começar a melhorar o mundo (FREIREs.a, s.p).

A sociedade só percebeu que a escola é tudo isso que gentilmente Paulo Freire descreveu, quando suas portas se fecharam e agora temos que reinventá-la.

Agora é momento de refletir com a olhar de “cada gente” que reinventou a escola e está em processo de se transformar em borboleta. A coordenadora, a professora, a mãe e a criança, que a educação foi a ferramenta para deixar o distanciamento social, as notícias tão tristes mais leves, e com a certeza, que dias melhores virão.
A FAMÍLIA NESSE MOMENTO TÃO DELICADO

Maria Martins Esteves1 , mãe de João2 , 4 anos de uma escola particular do município de São Paulo relatou que diante do isolamento social, e a demanda escolar com atividades diárias, foi necessário nos reinventarmos a cada dia.

A escola e as famílias precisaram de organização para encarar essa nova “Era Tecnológica”.

Ela percebeu que para facilitar o processo para os pais, foram enviadas pela escola REVISTA MAIS EDUCAÇÃO 713 atividades já impressas, o que facilitou o planejamento e execução das mesmas.

Também disse que a escola enviou orientações específicas sobre cada etapa a ser seguida, assim foi possível criar uma ordem para a realização das atividades, tendo em vista os eixos de ensino aplicados nas aulas diariamente.

O canal criado para a comunicação entre família e escola, foi de extrema importância para aproximar as famílias nesse momento tão delicado, foi possível formar uma corrente de ajuda e até proporcionar um momento especial de interação entre as crianças, por meio de vídeo chamadas, que puderam mostrar os brinquedos de casa e até inventar uma brincadeira online com fantasias.

Algo extremamente positivo que a mãe percebeu, foi acompanhar seu filho em atividades que ele executa em sala de aula, pois com a correria do dia-a-dia, às vezes, não há disponibilidade para acompanhá-lo tão de perto em estudos diários, e nem mesmo dimensão do quanto evolui no aprendizado, na autonomia e em outros aspectos.

Maria acredita que a posição da escola foi excepcional nesse momento, e que foram bem instruídas para dar o apoio aos pequenos em casa.

O professor encara qualquer desafio.

Quem diria que em pleno século XXI passaríamos por uma situação tão delicada em nosso país? Pois é! O problema que veio do outro lado do mundo e acabou chegando até nós. Como professor sempre tem desafios para encarar e não se vence tão fácil diante das dificuldades, com o Covid-19, não poderia ser diferente.

Aulas suspensas por tempo indeterminado. O que fazer?

Katia Pinheiro Serafim3 , professora em duas escolas particulares do munícipio de São Paulo nos relatou um pouco de como foi esse processo. Primeiramente teve o cuidado de rever o seu planejamento, porque com certeza precisaria adaptá-lo para tal situação. Após selecionar o que seria prioridade neste momento delicado, tarefa difícil, porque na área da educação todo conteúdo tem a sua importância.

Acreditou que o maior desafio neste momento de pandemia, foi se adaptar as ferramentas tecnológicas de uma maneira que pudesse contribuir com a continuidade dos estudos dos educandos. Essa é uma questão muito delicada, porque não temos acesso do quanto cada família tem de conhecimento nessa área, sem contar que a maioria também teve que ficar em casa devido ao isolamento social, e também executar suas tarefas profissionais remotamente.

“Por esse motivo, foi necessário um cuidado extremo na hora de enviar as atividades aos estudantes, porque é a nossa função de ensinar, fomos preparadas para isso e sabemos perfeitamente que desconstruir é mais difícil que construir”.

Então, um dos maiores desafios foi de gravar aulas, criar canais de comunicação para sanar as dúvidas dos estudantes e por que não entrar na casa de cada um e fazer uma aula on-line, sem saber quem realmente está assistindo? REVISTA MAIS EDUCAÇÃO 714 Esse é o papel do professor, encarar os desafios sem ter vergonha!

Katia percebeu que algumas famílias se adaptaram bem a essa rotina, porém outras se viram perdidas na organização do tempo, no acesso às atividades no modo virtual e até mesmo na maneira de ensinar, um, dois ou três filhos ao mesmo tempo, sem contar os demais compromissos. Algumas famílias atacaram a escola e outras entenderam a situação e foram parceiras, abraçando a causa.

Katia relata que sim, deu vontade de chorar, jogar tudo para o alto e deixar a situação passar, mas como muitos sabem, professor que é professor sempre dá um jeitinho de se adaptar e reinventar, afinal lidamos com diferentes crianças, com diferentes habilidades e para isso precisamos estar capacitados para o que der e vier, porque a área da educação está sempre em constante evolução.

É claro que nem todas as crianças tiveram acesso aos recursos que disponibilizamos, sabemos que algumas não têm autonomia para desempenhar determinada função, por esse motivo, quando tudo isso passar, é obrigação do professor reorganizar os conteúdos e adotar diferentes estratégias para conseguir recuperar esse tempo em que não foi possível estar presente 100% na vida escolar deles.

Madalena Freire (2013), afirma que: o professor não é técnico, nem um simples transmissor de conhecimento, mas um profissional que tem que ser capaz de identificar os problemas que surgem na sua atividade, procurando construir soluções adequadas. Para tanto, é necessário que possua, ele próprio, competências significativas no domínio da análise crítica de situações e da produção de novos conhecimentos visando à própria transformação (FREIRE,2013, p.34).

É exatamente isso que o professor fará quando tudo isso passar, analisar criticamente todo o percurso, buscar soluções e colocar em prática o que é necessário, rever o que passou, atuar e colher o melhor futuramente.

Katia relata que a sociedade refletiu e percebeu o quanto o papel do professor é importante e que não é possível substituí-lo, independentemente do tempo, da razão, do motivo, o professor deve sempre estar lá ,na sala de aula, lugar sagrado, cumprindo seu papel.

1 Nome fictício. | 2 Nome fictício. | 3 Nome fictício.
EDUCAÇÃO REMOTA NA ESCOLA PÚBLICA

Infelizmente, vivemos em uma sociedade em que a desigualdade social existe, e quando nos deparamos com situações inusitadas, a desigualdade se torna ainda mais evidente, pois para buscar novas estratégias de trabalho, necessitamos de acesso a recursos, e isso não seria diferente na área da educação.

Na segunda quinzena de abril, as secretarias estaduais e municipais começaram a orientar o corpo docente de como o trabalho educacional remoto irá acontecer. Foi preparado um material impresso às escolas municipais, em que as famílias receberão em suas residências e as orientações a partir de uma plataforma digital, na qual os professores farão as publicações e orientações.

Como faço parte da equipe docente de uma escola municipal, a equipe gestora e professores, estão em constante comunicação, para sanar as dúvidas, que são muitas, e tentar da melhor forma atingir os estudantes. REVISTA MAIS EDUCAÇÃO 715 Sabemos que as barreiras e dificuldade de acesso, são inúmeras, mas a busca é verdadeira, os professores assumiram com empenho o desejo de fazer acontecer.

No momento não tenho dados para avaliar se as crianças estão acessando ou não, conseguirão ou não, aprenderão ou não, mas o esforço e o comprometimento são efetivos, na qual queremos que as crianças tenham voz e vez no processo de aprendizagem.

A ESCOLA EM CASA... E AGORA?

Qual é a visão da criança numa situação tão inesperada? Não ir à escola... fazer as atividades acadêmicas em casa...não ver os amigos e principalmente, ter os pais como professores...Ana Luiza4 , menina de 10 anos, que frequenta o 5º ano do Ensino Fundamental I numa escola da rede privada, faz o seguinte relato:

Em uma semana, deixamos de ir para a escola, em uma semana, deixamos de sair de casa, em uma semana, tudo mudou...

O mundo inteiro parou, ficou de cabeça para baixo, por causa de um novo vírus, fazendo as crianças estudarem em casa. E como isso é? Eu te respondo como: Horrível!

Não temos mais a professora para nos orientar, nos ajudar, nos corrigir, agora, são os pais, que não têm os conhecimentos das professoras, afinal, não se formaram nisso!

Nós, crianças também nos distraímos muito em casa, porque tudo o que gostamos está ao nosso alcance, o chocolate no armário da cozinha, os brinquedos no quarto, etc.

Às vezes penso como seria melhor se esse vírus não tivesse aparecido, e torço para que isso acabe logo...

Graças à tecnologia conseguimos fazer as lições, esclarecer as dúvidas, porém, não é a mesma coisa...

E também não é fácil, não é nada fácil, fazer as atividades em casa, porque nem sempre os pais podem ajudar, afinal, para eles também está sendo difícil trabalhar em casa...

Mas, se isso vai ajudar a combater o vírus, devemos correr esse risco, para voltarmos à escola o mais rápido possível (ANA LUIZA, 2020, s.p).

4 Nome fictício.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação acadêmica nunca mais será a mesma depois do ano de 2020. A visão que a sociedade tinha do professor também mudou, será que agora terá o valor que sempre mereceu?

Quantas perguntas, e a resposta são muito simples, em situações de desafios, sofrimento, aprendemos muito, a empatia dentro de todo esse contexto reformulará as relações entre os atores da escola. Equipe gestora, professores, famílias e crianças.

Madalena Freire (2013), que afirma:

Escola é um espaço público porque é espaço de muitos representantes: cada criança é representante de uma família...Educadores são os que introduzem a criança nesse mundo que não é o da família...Pai e mãe são educadores, mas não são educadores do mundo formal, do mundo público, da sociedade do conhecimento. Pai e mãe não acordam com o planejamento nas mãos (FREIRE,2013, p.47).

No entanto, a escola não pode viver sem a família, sem a sociedade.

Hoje podemos afirmar que o que move a educação é a vontade, vontade de não ver a escola parar, o interesse, dos atores da escola, de realizar, de continuar e de fazer o que for preciso e necessidade de mudança, de parceria, de rever, de refazer e de recriar.

Termino nossa reflexão com um texto de José Saramago que gentilmente nos presenteia com as seguintes palavras:

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

Nossa viagem na área da educação, a busca pela excelência, depois de 2020, nunca mais será a mesma!!!
A educação acadêmica nunca mais será a mesma depois do ano de 2020. A visão que a sociedade tinha do professor também mudou, será que agora terá o valor que sempre mereceu?

Ligia Priscila Pacheco de Almeida

Professora de Ensino Fundamental na Rede Municipal de São Paulo e Coordenadora Pedagógica no Colégio Passionista Santa Gema. Graduação: Licenciatura em Pedagogia; Especialização em Psicopedagogia.

Artigo: Revista mais educação – Vol. 3, n. 3 (Maio 2020) -. São Caetano do Sul: Editora Centro Educacional Sem Fronteiras, 2020

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